Acusado de censurar “A Mulher Monstro” , Greca é vaiado pelo público e recebe recado de ator

‘A Mulher Monstro’ estava escalada para acontecer no Memorial de Curitiba e após decreto de Rafael Greca foi retirada do local e apresentada na rua

 

Elizabet Letielas – Jornalista

 

O guia impresso do Festival de Teatro, bem como os panfletos, anunciavam “A Mulher Monstro” no Memorial de Curitiba do dia 04 ao dia 07 de abril. Após toda divulgação que falava abertamente sobre a peça criticar Jair Bolsonaro, chegou a notícia de proibição do uso do Memorial para apresentação do ato.

O decreto de Rafael Greca alegava que o espaço seria usado pela Prefeitura nas datas que coincidam com as do espetáculo. Entretanto, segundo o ator José Neto Barbosa (estrela do monólogo), a notícia chegou a ele sem uma explicação plausível. “Não teve justificativa, porque nenhum movimento de opressão se justifica de forma objetiva”, declara o ator.

O recado que José deixa ao Prefeito, além das acusações de censura, é que não se pode governar para sua vaidade e é preciso que ele dê espaço para todos. “Esse é o processo democrático, é ouvir também o que a gente não concorda”, diz o ator. José chegou a chamar Greca de ‘Prefeito Bolsomion‘ em sua conta pessoal do Instagram.

 

FotoCadeira.JPG Ator se apresenta com uma cadeira com os dizeres: preconceito, Golpe 2016, bancada evangélica, ódio, assédio, corrupção, sexismo, alienação, gordofobia, burguesia, egoísmo, intolerância.

Mesmo com um grande prejuízo financeiro e um forte impacto emocional, a companhia nordestina levou seu espetáculo para as ruas. Divulgando “A Mulher Monstro” com um número menor de panfletos e usando as redes sociais, José chamou o público para comparecer às Ruínas de São Francisco e avisou “Eu vim de longe e não vou ficar calado”.

Noite de estreia

Na última quinta-feira (04), as arquibancadas das Ruínas de São Francisco – que tem capacidade de abrigar mil pessoas – estavam com todos degraus ocupados. Boa parte do público precisou sentar no chão e, por falta de lugares, houve até quem ficou frente a frente com a jaula em que a mulher monstro se apresentava. Cientes da polêmica, assim que o slogan de abertura do Festival de Teatro foi passado com a frase ‘Pátria amada Brasil’, o público reagiu com vaias e xingamentos a Rafael Greca.

Dois motivos atrasaram a peça em meia hora no dia de sua estreia: primeiro porque o público não parava de chegar e tentar se acomodar pelo local, segundo porque as falhas técnicas eram visíveis, como problemas de som na música de abertura e as falhas no áudio do microfone do ator. Tudo por conta da estrutura ser diferente da que teria dentro do Memorial de Curitiba.

 

FotoJaula.JPGCréditos: Elizabet Letielas

O comportamento do público em um espaço aberto também se torna diferente do que teriam dentro de um auditório ou teatro. As conversas paralelas no decorrer da peça, pessoas fumando, pessoas chegando atrasadas e passando em frente ao ator durante a peça foram comuns ao longo daquela noite, porém o que mais chamou a atenção foram as reações aos depoimentos de preconceito com negros, gays, gordos, macumbeiros, cotistas, mulheres e vítimas da depressão.

“Eu nunca passei por isso de forma tão agressiva como aqui”, diz o ator que precisou parar sua peça no meio e sair do personagem por conta da reação de uma mulher negra, que se ofendeu com frases da peça que diziam que “negros entram no nosso país trazendo doenças, negros têm cabelo ruim, negros cheiram a catinga e nordestinos são burros”.

Aos gritos, a mulher se defendia: “Brancos também trazem doenças”, “Não tem graça nenhuma falar que meu cabelo é ruim”, “Se isso fosse uma peça sobre brancos, ninguém aqui estaria aplaudindo”. A personagem de mulher reacionária de direita precisou ser desfeita para conter o público que começou a atacar a espectadora. O ator se viu ali na responsabilidade de responder tanto a moça, quanto ao público: “Traga os verdadeiros monstros para dentro dessa jaula. Você vai querer me censurar também? Vamos conversar depois da peça”. Mas, mesmo assim, a mulher escolheu se retirar da peça.

https://www.youtube.com/watch?v=NFX3ToJYNOE&feature=youtu.be

Legenda: No vídeo, o momento em que a mulher que estava entre o público interrompe o ator, que decide sair de seu personagem para dialogar com ela e dispara: “Não é fácil ser censurado mais uma vez, por favor me deixem fazer minha arte.”

“A gente não pode subestimar a capacidade do público. Cada um reage de uma forma. Eu sou um nordestino, artista e gay. Eu estou na marginalidade. Mas ela era uma mulher negra, que sofreu tanto na vida por isso e eu nunca vou saber do sofrimento dela”, esclarece José quando questionado sobre a reação da mulher. “Eu sei que o espetáculo é díficil, ele dói, não é para todos e quem se sentir muito ferido, por favor não venha me assistir”, ele diz.

No encerramento da peça, o ator se desmonta ao som de uma coletânea de frases ditas pelo Presidente Jair Bolsonaro, como “Eu não te estupro porque você não merece”; “Se eu ver dois homens se beijando na rua, vou bater”. O público reage com aplausos em pé e, novamente, gritos de xingamentos ao prefeito Rafael Greca.

 

Fotos por Elizabet Letielas

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